sexta-feira, 29 de abril de 2016

Tem pão velho?



Tem pão velho?
08.01.2014

Arquimedes Estrázulas Pires

O tempo que sobra para o não fazer nada, mesmo que seja só de vez em quando, muitas vezes é uma chatice total! Muitas vezes, entretanto, nos proporciona coisas extraordinárias!

Muito embora o “não fazer nada” tenha tido pouco espaço nos meus dias, depois de um enfrentamento que tivemos – um avião monomotor e eu – no ano de 1999, o que me rendeu nada menos do que 25 cirurgias e 4 anos entre a cama de casa e a de hospitais, por aí, agora que estou aposentado e a minha estrada chega ao quilômetro 70 tenho feito muito menos do que antes fazia ou podia fazer. Me esforço ao extremos pra espantar o nada, me ocupo de alguns escritos e de coisas que invento, mas sempre acaba sobrando um tempinho para esse vazio que as pessoas chamam de... ociosidade.

E foi num dia assim, de poucos afazeres e muita vontade de, que eu tomava o meu modesto café da manhã, com pão comprado há dois dias, na Padaria da esquina - e não quero que isto seja interpretado como um comercial daquela excelente panificadora, confeitaria, lanchonete e coisas mais – um pedaço do miolo do pão que eu cortei pulou pra debaixo do pacote.

Gosto de miolo de pão! Quando trabalhava no Maranhão, há coisa de 30, 35 anos, meu amigo Rubão da Costa – pai do Rubinho e que já voltou pra casa há alguns anos - e eu, íamos tomar o café da manhã, todos os dias, na padaria do bairro São Francisco, em São Luís do Maranhão e, como ele só gostava da casca e eu só gostava do miolo, abríamos o pão, ele comia a casca e eu comia o miolo. É assim que as coisas funcionam na vida de quem vive com pouca grana. Promovendo a desunião entre as cascas e os miolos é possível viver melhor. Talvez por isso os loucos sejam mais felizes! Quem sabe?

Levantei o pacote sob o qual o cobiçado pedaço de miolo de pão havia se abrigado e, ao fazê-lo, percebi que havia um grande texto impresso na embalagem. Não pude ler, no momento, porque usamos lâmpadas econômicas, em casa. Em casa de aposentado usa-se lâmpadas econômicas!

Terminei o meu frugal repasto matinal, tirei as coisas da mesa – essa é tarefa que me cabe todos os dias em que há café da manhã, na minha casa – e fui para debaixo da bondosa árvore que nos fornece sombra, graciosamente, todos os dias, e li o que estava escrito no pacote.

Tem pão velho”?

O texto narra a estória de um menino que vai pedir pão a uma senhora que limpa o jardim de casa e com ela desenvolve um diálogo assim:

- Tem pão velho, senhora?

- Serve pão novo? Pão velho eu não tenho!

- Eu peço pão velho porque sempre tem pão velho sobrando, nas casas!

- Quantos anos você tem, menino?

- Eu? Dez.

- Tá na escola?

- Não! Minha mãe não tem dinheiro pra comprar uniforme e material; nem calçado eu tenho!

- E teu pai?

- Sumiu de casa.

- Onde você mora, menino?

- Pra lá do zoológico.

- É bem longe, né!

- É! Mas eu tenho que pedir coisa pra comer; pra minha mãe e pra mim.

- Vou buscar pão novo, pra você.

- Precisa, não! A senhora já conversou comigo e isso é mais do que muito bom! Ninguém conversa comigo, sabia?!

O texto está assinado por um certo Antônio Maia. Eu não sei quem é o Antônio Maia, mas sei que com esse texto ele jogou qualquer coisa nos meus olhos. Eu nem tinha terminado de ler e eles começaram a verter ardidas lágrimas de emoção; as lágrimas de emoção são ardidas porque saem lá do fundo, né! Eu penso assim.

E então eu me lembrei daquelas vezes em que, na Casa Espírita que frequento, a gente fala sobre “caridade”. Essa coisa que as pessoas pensam que é o mesmo que esmola. Esmola é outra coisa. Caridade é isso aí. Não necessariamente um pão, velho ou novo, porque nem sempre o pão é mais importante do que um dedinho de prosa, mas esse dedinho de prosa, sempre é importante! Mais especialmente ainda se ele vem com um sorriso, se ele vem de braços abertos, com um aperto de mão, com carinho e sem nenhum preconceito.

A padaria da esquina e o Antônio Maia me deram a oportunidade de escrever este relato sobre o menino que pedia pão velho porque sabe que o pão velho às vezes se perde nas latas de lixo das casas onde não faz falta; mas faz falta nas casas onde às vezes nem latas de lixo, tem. Porque nem tem o que jogar dentro.

E eu fico feliz com a oportunidade, porque falar de esmola não é a mesma coisa que falar de caridade. A esmola fere a alma de quem recebe e de quem dá, explica o Evangelho Segundo o Espiritismo. A caridade, não. A Caridade é irmã gêmea do amor ao próximo, esse sentimento que nos ensina a fazer aos outros só aquelas coisas que nos deixam felizes quando os outros as fazem a nós. É isso que Jesus Cristo aconselha; não é?
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