sábado, 30 de abril de 2016

Roni - O guarda morto.



Roni

O guarda morto
13/07/2015

Arquimedes Estrázulas Pires

"Um dia meu pai estava no Parque Barigui e viu um guarda municipal conversando em inglês com um estrangeiro. Ele achou muito interessante a cena, porque o guarda falava tão bem em inglês, que ele é quem parecia o estrangeiro.

Semana passada eu estava no parque com meu pai e encontramos este mesmo guarda. Fomos conversar com ele e ele nos contou que fala 5 línguas e até já conversou com o embaixador de Israel. Também nos contou sobre o seu trabalho e disse que não acreditava que o uso da violência melhoraria a segurança.

Nós o parabenizamos e o guarda ficou muito feliz por ser reconhecido; acredito que isso tenha feito o dia dele melhor.

Ele era Roni. Um cara muito simpático, atencioso e muito dedicado.

Meus sentimentos aos familiares e obrigada, Roni!"       

Giulia Kamantschek Montemurro



          Os desmandos, os maus exemplos, a impunidade, a desesperança, a necessidade quase absurda de buscar alternativas que deem uma direção nova à vida, que motivem positivamente, que façam as pessoas sentirem vontade de melhorar a si mesmas e de viverem melhor, têm promovido a banalização de tudo. A desassistência, os acidentes no trânsito, os desgovernos, o desrespeito à propriedade, à família e aos mais velhos, a tributação escorchante, o homem no espaço, a evolução da ciência... tudo está banalizado. A vida e a morte estão banalizadas! As pessoas não se emocionam mais, diante de uma ou de outra coisa!

     Nada mais emociona a humanidade! É como se Huxley nos induzisse ao “Admirável Mundo Novo” e nos capasse todas as emoções, como àqueles seres produzidos em série, nos laboratórios que magistralmente concebeu em sua literatura futurista e não refletida, embora já há mais de meio século.

     O admirável “Roni” está por todos os lados, em todas as partes e em todos os parques; e nós nos recusamos a vê-lo. A humanidade, engessada em suas emoções – que também se banalizam! – se recusa a vê-lo. Porque se deteriora, banalmente, um pouco mais a cada dia que amanhece.

     Que pena! 
        Meu agradecimento especial a Giulia Kamantschek Montemurro, cidadã curitibana que teve a sensibilidade de se manifestar, emocional e emocionantemente, sobre este episódio tão significativo e tão “deixado pra lá”, pela maioria das pessoas; como em tantos outros fatos de igual ocorrência e tristeza.
       Digo que somos as marcas que vamos deixando pela vida. A Giulia, por esse depoimento que registra a sua sensibilidade ainda não vencida pela banalidade reinante em tantos lugares e tantos corações, deixa uma, importantíssima. Que a sua emoção seja capaz de nos fazer pensar, sempre que um fato assim seja capaz de nos tocar o sino da emoção.

       Obrigado, Giulia Kamantschek Montemurro; continue mostrando a tua capacidade de se emocionar; o mundo precisa dela.

           Obrigado à família do Roni, que foi capaz de lhe transmitir princípios tão importantes e capazes de levá-lo a produzir exemplos tão dignos de admiração e aplauso. Mesmo considerando a tristeza registrada ao final da sua história, é importante lembrar que nada acontece por acaso e que em tudo há um propósito do Grande Espírito Criador.   
              Sejam abençoados.


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sexta-feira, 29 de abril de 2016

Quem somos?



Quem somos?
26 de abril de 2016



Arquimedes Estrázulas Pires

         
          Alhures já nos referimos à citação de Divaldo Pereira Franco, um dos mais significativos ícones do Espiritismo, em todo o mundo, sobre a hora do “embarque” para o Plano Espiritual ao final dos dias programados para existirmos sobre a Terra em cada viagem aqui realizada pelo Espírito que somos: “o que temos, nós deixamos e... o que somos, nós levamos”.


          Penso que isto seja mais do que suficiente para nos tirar da ilusão de que se somos econômica e financeiramente modestos ou carentes, eternamente seremos assim. Ou, se somos – ou nos sentimos – econômica, financeira e socialmente “poderosos”, também seguiremos assim, nos planos menos densos do existir.

          Vivemos em um Planeta onde a diversidade é a principal ferramenta de apara das arestas que machucam quem nos acompanha, e de suavizar a face do Espírito que aqui está em aprendizado; como todos estamos.

          A diversidade é o caldo em que a índole do Espírito Humano se aprimora. Pela observação de outros Reinos da Natureza, pela comparação com outros seres do Reino Animal, pela avaliação de comportamento de outros seres da nossa mesma espécie hominal e, evidentemente, pela reflexão sobre as múltiplas escolhas possíveis, de sementes a plantar, estradas a trilhar e rumos a seguir. Porque – no nível evolutivo médio, em que nos encontramos – já somos capazes de saber muito mais sobre o livre arbítrio e suas consequências, do que sabiam nossos ancestrais, há apenas alguns séculos.

          As ideias, os conceitos e as verdades sobre a realidade em que vivemos, podem ser modificadas sempre que nos dermos ao trabalho de observar, comparar e avaliar situações, seres e comportamentos.

          Me permito discordar de alguns filósofos que enfatizam ser o homem um produto do meio em que vive. Somos suficientes detentores da capacidade de tomar decisões; temos livre arbítrio. É evidente, portanto, que somos responsáveis – únicos! - pelo que fazemos de nós mesmos e do meio em que vivemos.

          Concordar que somos produto do meio em que vivemos seria nos qualificar como seres plenos de inutilidade e incapazes de pensar, refletir, avaliar, decidir, fazer e, claro, ser. Somos o produto de nós mesmos. Como dizia Aristóteles, somos aquilo que praticamos todos os dias.

          Claro está, por consequência, que o meio em que vivemos também está sujeito ao nosso jeito de pensar, refletir, avaliar, decidir, fazer e ser!

          Em assim sendo, e em que pese a diversidade de graus de evolução que em nosso Planeta caracteriza o Espírito encarnado, só não há transformações – positivas ou não – em nós e no meio que nos está sujeito, se nos dedicarmos à total indiferença em relação a tudo.

          O indolente é um ser distante de tudo e de si mesmo. E porque é sempre indiferente, pouco lhe importa o fato de que uma vez passando inútil pela vida, outras vezes poderá ter que voltar para aprender a se animar e fazer coisas que o tornem um ser melhor, diante de si mesmo, e mais digno da condição de “filho de Deus”.

          É com o objetivo de aprender a conhecer, saber conhecer, demonstrar que sabemos e de compartilhar o que agora sabemos, que estamos aqui. Ou o Grande Espírito, sentindo vontade de criar seres inteligentemente pensantes, mas inúteis e estáticos, nos teria colocado em planetoides como o do Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, acompanhados de, no máximo, uma raposa.

          Essa viagem, que chamamos de “evolutiva”, por mais que exija, por mais que sacrifique, por mais que experimente e por mais que prove, é tudo o que de melhor poderia acontecer ao Espírito Criado. Porque nos ensina a ser como deve ser alguém que está fadado à Perfeição. É possível que em outras das “muitas moradas da casa do Pai” o Espírito já não precise de sacrifícios, lições e provas; mas ainda não é o nosso caso.

          A Doutrina dos Espíritos ensina que um dia, através do misericordioso processo das reencarnações sucessivas, todos seremos Anjos de Deus. Na vida sujeita às limitações do corpo físico tudo se passa como se estivéssemos nos deslocando - de ônibus – em viagem de estudo, de longa duração, em conjunto com outras pessoas, como em excursão.

          Os intervalos entre as reencarnações funcionariam, na nossa metáfora, como as estações de parada para um cafezinho, uma refeição ou um pernoite. É quando podemos nos movimentar à vontade, espichar as pernas, nos espreguiçar, se sentirmos vontade disso, e nos mexer, fora da nem sempre confortável imobilidade que o veículo em que viajamos nos exige, enquanto estamos condicionados no seu interior.

          Fora do corpo físico, nos intervalos reencarnatórios, o Espírito também se movimenta, se recicla, toma um cafezinho feito de conhecimentos novos, se refaz da “viagem de ônibus” e se prepara para continuar, porque certamente haverá outras a viajar.

Independente do tempo que demore até a Perfeição, a paisagem vista pela janela da vida, existência afora, também sofre a influência da nossa capacidade de compreender e pensar. 
          Dois passageiros de uma mesma viagem são incapazes de enxergar as mesmas coisas e de sentir as mesmas emoções, enquanto apreciam o que está ao alcance dos seus olhos, por onde seguem. Mesmo que viajando no mesmo tempo.

          Evoluímos de maneira diferente, ainda que sob as mesmas lições e as mesmas provas, porque somos individualidades universais e, portanto, sentimos de maneira especialmente particular, as coisas que experienciamos. Porque Deus nos haverá de querer capazes, qualificados e habilitados ao exercício do saber, quando por merecimento houvermos sido incorporados ao todo de que fazemos parte, e de que tudo é feito. Como aprendemos e compreendemos, pouco importa, desde que compreendamos e aprendamos.

          Existir é muito mais do que viver; é o conjunto de vidas sucessivas que através das reencarnações nos permite evoluir até que de novo nos agreguemos à Fonte de tudo. Como na metáfora do “pinhão”, onde o Espírito Ramatis justifica a afirmativa de que “somos criados à imagem e semelhança de Deus”.

          De que jeito é Deus? Qual é a sua figura? É alto? Baixo? Magro? Gordo? Qual é a cor de Deus?

          No livro “O Evangelho à Luz do Cosmo”, Capítulo 2 – Evolução – Pag. 56, Ramatis usa uma metáfora interessante, para nos fazer entender essa questão:

          “Embora algo simplista, poderíamos explicar-vos, por exemplo, que o “macropinheiro”, isto é, a araucária, cujos ramos buscam o alto, forte e resistente, na sua configuração definitiva existiu inteirinho na miniatura do pinhão, ou seja, no “micropinheiro”!

          Assim que a semente de pinhão é plantada no solo, depois de certo tempo germina, e, gradativamente, vence as adversidades do meio nos seus ajustes para a emancipação; até atingir a configuração gigantesca decisiva do pinheiro. É evidente que esse acontecimento ou fenômeno só se concretiza porque na intimidade do próprio pinhão há todo um pinheiro em estado latente, e seus atributos criativos despertam e se impõem tanto quanto faz o crescimento da árvore.

          De modo semelhante, o espírito do homem também é ajustado ao solo das lutas cotidianas, onde deve romper a crosta da personalidade animal inferior, desenvolver os atributos de Deus existentes em sua intimidade espiritual, até alcançar a plenitude do anjo consciente, que é a sua Realidade Divina! Assim como, no fundo da terra, o pinhão modifica-se de semente para originar o pinheiro majestoso e adulto, o “homem velho”, produto dos instintos da animalidade, também deve morrer, para em seu lugar renascer o “homem novo”, onde predominam os sentimentos e a razão, meios para a ascensão angélica.

O espírito do homem, entretanto, desperto, cresce incessantemente ampliando a consciência e o sentimento superior, desenvolvendo os próprios atributos divinos, porque o Criador é o fundamento criativo e eterno de toda individualidade humana. Assim, o espírito do homem é eterno e incorruptível, porque foi criado da essência eterna de Deus”.

          Refletindo sobre essa bela metáfora é possível assimilar o fato de que um dia, no distante infinito do tempo cósmico e já bem “crescidos” em sabedoria, então conheceremos, de fato, o dito de havermos sido “criados à imagem e semelhança do Criador”. Será assim porque teremos chegado à perfeição e então já não teremos nas lições e provas da existência, as duras circunstâncias existenciais, como hoje as temos.    
          Mas as compreenderemos como veículo, via e passagem, como diz Exupéry, em sua “Cidadela”, para chegarmos a onde então estaremos.

          E assim será, porque somos a essência do Grande Espírito Criador, em processo de expansão através das diferentes fases da existência eterna e infinita, que nos identifica como a porção inteligente da Criação.

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