Doenças Espirituais

DOENÇAS ESPIRITUAIS

 Prof. Dr. Nubor Orlando Facure
 Revista RIE - Revista Internacional de Espiritismo  abril/2001

O objetivo espírita

O Espiritismo é uma doutrina que introduz ao nível do conhecimento médico um vastíssimo campo de estudos, ampliando diagnósticos e introduzindo uma nova interpretação capaz de justificar a razão do sofrimento que a doença nos traz.
O Espiritismo não veio para competir com qualquer especialidade médica e sua principal atuação não é a de produzir curas. Com muita frequência, seus adeptos o utilizam com esses propósitos, sugerindo na sua busca, o consolo e a cura das doenças. Seu papel, primordial, é o de iluminar e esclarecer, para que cada criatura promova por si próprio, sua reeducação espiritual.
Sem reforma íntima não vai ocorrer progresso nem cura. Neste sentido as doenças são compreendidas como lições com grande potencial de transformação e trazem oportunidades de renovação e crescimento espiritual.

Diagnóstico da doença ou manifestação espiritual

A mim parece que temos no meio espírita dois vícios de interpretação das manifestações da espiritualidade. Quase sempre, aquele que busca no centro espírita uma orientação diante de seus problemas, vai ouvir que seu caso é de “obsessão” ou, no mínimo, de “mediunidade” e que ele “precisa se desenvolver”. É preciso reconhecer que, enquanto criaturas humanas que somos, percorrendo mais uma encarnação no planeta, pertencemos a um vastíssimo grupo de espíritos que, sem exceção, ainda está muito endividado e comprometido com seus resgates, para imaginarmos que algum de nós possa dizer, com segurança, que não tenha qualquer problema espiritual.
Classificação das doenças espirituais:
1 - Doenças espirituais auto-induzidas:
- Desequilíbrio vibratório
- Auto-obsessão
2 - Doenças espirituais compartilhadas:
- Vampirismo
- Obsessão
3 - Mediunismo
4 - Doenças cármicas

Desequilíbrio vibratório:

O perispírito é um corpo intermediário que permite ao espírito encarnado exercer suas ações sobre o corpo físico. Sua ligação é feita célula a célula atingindo a mais profunda intimidade dos átomos que constitui a matéria orgânica do corpo físico. Esta ligação se processa às custas das vibrações que cada um dos dois corpos, o físico e o espiritual, possuem. Compreende-se então que este “ajuste” exige uma determinada sintonia vibratória. O perispírito não é prisioneiro das dimensões físicas do corpo de carne e pode manifestar suas ações além dos limites do corpo físico, pela projeção dos seus fluidos. A sintonia e a irradiação do perispírito são dependentes unicamente das projeções mentais que o espírito elabora. Assim, a aparência e a relação entre o corpo físico e o corpo espiritual são dependentes exclusivamente do fluxo de ideias que construímos.
Devemos reconhecer que, de maneira geral, o ser humano ainda perde muito dos seus dias comprometido com a crítica aos semelhantes, o ódio, a maledicência, as exigências descabidas, a ociosidade, a cólera e o azedume, entre tantas outras reclamações levianas contra a vida e contra todos. O orai e vigiai ainda está distante da nossa rotina e a tentação de enumerar os defeitos do próximo ainda é muito grande.
São estes os motivos que desajustam a sintonia entre o corpo físico e o perispírito. É esta desarmonia que desencadeia as costumeiras sensações de mal estar, de “estafa” desproporcional, a fadiga sistemática, a dispneia suspirosa onde o ar parece sempre faltar, os músculos que doem e parecem não aguentar o corpo. A enxaqueca que o médico não consegue eliminar, a digestão que nunca se acomoda e tantas outras manifestações tidas a conta de “doenças psicossomáticas”. São tantos a procurarem os médicos, mas muito poucos a se dedicarem a uma reflexão sobre os prejuízos de suas mesquinhas atitudes.

A auto-obsessão : 

O pensamento é energia que constrói imagens que se consolidam em torno de nós, desenhando um “campo de representações” de nossas ideias. À custa dos elementos absorvidos do “fluido cósmico universal”, as ideias tomam formas, sustentadas pela intensidade com que pensamos no que esta ideia propõe.
A matéria mental constrói em torno de nós uma “atmosfera psíquica” (psicosfera) onde estão representados os nossos desejos. Neste cenário estão os personagens que nos aprisionam o pensamento pelo amor ou pelo ódio, pela inveja ou pela cobiça, pela indiferença ou pela proteção que projetamos para os que queremos bem.
Da mesma forma, os medos, as angústias, as mágoas não resolvidas, as ideias fixas, o desejo de vingança, as opiniões cristalizadas, os objetos de sedução, o poder ou os títulos cobiçados, também se estruturam em “ideias-formas”. A partir daí seremos prisioneiros do próprio medo, dos fantasmas da nossa angústia, das imagens dos nossos adversários, da falsa ilusão dos prazeres terrenos ou do brilho ilusório das vaidades humanas.
A matéria mental produz a “imagem” ilusória que nos escraviza. Por capricho nosso, somos “obsidiados” pelos próprios desejos. 

As Doenças espirituais compartilhadas :

Incluímos aqui o vampirismo e a obsessão. Dizemos compartilhadas porque são produzidas pela associação perturbadora de um espírito desencarnado e sua vítima, estando ambos sofrendo de um mesmo processo psicopatológico. A participação como vítima ou réu, frequentemente se alterna entre eles.

Vampirismo:

O mundo espiritual é povoado por uma população numerosíssima de espíritos que, segundo informes, deve ser 4 a 5 vezes maior que os 6 bilhões de Almas encarnadas em nosso planeta. Como a maior parte desta população de espíritos deve estar habitando as proximidades dos ambientes terrestres, onde flui toda vida humana, não é de estranhar que, estes espíritos, estejam compartilhando conosco todas as boas e más condutas do nosso cotidiano.
Contamos com eles como guias e protetores que constantemente nos inspiram, mas, na maioria das vezes, nós os atraímos pelos vícios e eles nos aprisionam pelo prazer.
Contam-se aos milhões os homens envolvidos com o álcool, o cigarro, as drogas ilícitas, os soporíferos, os desregramentos alimentares e os abusos sexuais.
Para todas estas situações, as portas da invigilância estão escancaradas, permitindo o acesso de entidades desencarnadas que passam a compartilhar conosco o elixir das satisfações mundanas da carne.
Nestes desvios da conduta humana a mente do responsável agrega em torno de si elementos fluídicos que aos poucos vão construindo “miasmas psíquicos” com extrema capacidade corrosiva do organismo que a hospeda. O alcoolista, o drogado ou o viciado de qualquer substância, constrói para si mesmo os germens que passam a lhes obstruir os funcionamentos das células hepáticas, dos glomélulos renais, dos alvéolos pulmonares, dos dúctos prostáticos, cronificando lesões que a medicina tem à conta de processos incuráveis.
As entidades espirituais viciadas compartilham os prazeres do vício que o encarnado lhes favorece e ao seu tempo o estimula a permanecer no vício.
Nesta associação há uma tremenda perda de energia por parte do responsável pelo vício; daí, a expressão vampirismo, ser muito adequada para definir esta parceria. 

Obsessão:

No decurso de cada encarnação a misericórdia de Deus nos permite usufruir das oportunidades que melhor nos convêm para estimular nosso progresso espiritual. Os reencontros ou desencontros são de certa maneira planejados ou atraídos por nós para os devidos resgates de compromissos que deixamos para traz, ou as facilidades aparecem para cumprirmos as grandes promessas que desenhamos no plano espiritual.
É assim que, pais e filhos, se reencontram como irmãos, como amigos, como parceiros de uma sociedade comum na atividade humana. Marido e mulher que se desrespeitaram, agora se reajustam como pai e filha, chefe e subalterno ou como parentes distantes que a vida dificulta a aproximação. Mães que desprezaram os filhos, hoje passam de consultório a consultório numa peregrinação onde desfilam dificuldade para terem de novo seus próprios filhos. A vida de uma maneira ou de outra vai reeducando a todos.
Os obstáculos que à primeira vista parecem castigo ou punição, trazem no seu emaranhado de provas a possibilidade de recuperar os danos físicos ou morais que produzimos no passado.
Com frequência, ganhamos ou perdemos na grande luta da sobrevivência humana. Nenhum de nós percorre esta jornada sem ter que tomar decisões, sem deixar de expressar seu desejos e sem fazer suas escolhas. É aí que muitas e muitas vezes contrariamos as decisões, os desejos e as escolhas daqueles que convivem próximo de nós.
Em cada existência amontoamos pessoas que não nos compreenderam, amigos que nos abandonaram por se contrariarem com opiniões diferentes da nossa, sócios que não cumpriram seus compromissos conosco, parentes ou simples conhecidos que difamaram gratuitamente nosso nome.
Em muitas outras ocasiões do passado, já tivemos oportunidade de participar de grandes disputas financeiras, de crimes que a justiça terrena não testemunhou, de aborto clandestino que as alcovas esconderam e de traições que a sociedade repudiou e escarneceu.
Nos rastros destas mazelas humanas, nós todos, sem exceção, estamos endividados e altamente comprometidos com outras criaturas, também humanas e exigentes como nós mesmos, que, agora, estão a nos cobrar outros comportamentos, a nos exigir a quitação de dívidas que nos furtamos em outras épocas e a persistirem no seu domínio procurando nos dificultar a subida mais rápida para os mais elevados estágios da espiritualidade.
A ciência médica de hoje, ainda não traz em seus registros nosológicos a obsessão espiritual, na qual uma criatura exerce domínio sobre a outra. Este quadro é, de longe, o maior dos males da patologia humana, principalmente por persistir séculos a fora, repetindo-se a cada existência.
Nas obras básicas do Espiritismo, Allan Kardec esclareceu que a obsessão se estabelece em três domínios de submissão crescente: a “obsessão simples”, a “fascinação” e a “subjugação”. Os textos clássicos de Kardec e toda literatura espírita subsequente, principalmente de André Luiz e seus abnegados intérpretes, como Marlene Rossi Severino Nobre (A obsessão e suas máscaras), são mais do que suficientes para nos esclarecerem sobre este tema.

Mediunismo:

Pretendemos, com esta denominação, discutir os quadros de manifestações sintomáticas apresentadas por aqueles que, incipientemente, inauguram suas manifestações mediúnicas. Com muita frequência, a mediunidade, para certas pessoas, se manifesta de forma tranquila e é tida como tão natural que, o médium, quase sempre ainda muito jovem, mal se dá conta de que, o que vê, o que percebe e o que escuta, de diferente, são comunicações espirituais e que só ele está detectando estas manifestações, embora, lhes pareçam ser compartilhadas por todos.
Outras vezes, os fenômenos são apresentados de forma abundante e os principiantes são tomados de medos e insegurança, principalmente por não saberem do que se trata e costumam se retrair, por perceberem que são diferentes das pessoas com quem convivem.
Em outras ocasiões, temos a mediunidade atormentada por espíritos perturbadores, e o médium, sem contar com qualquer proteção que o possa ajudar, se vê às voltas com uma série de quadros da psicopatologia humana. Frequentemente ocorrem crises do tipo pânico, histeria ou manifestações somatiformes que se expressam em dores, paralisias, anestesias, “inchaço” dos membros, insônia rebelde, sonolência incontrolável. Uma grande maioria tem pequenos sintomas psicossomáticos e se sentem influenciados ou acompanhados por entidades espirituais. São médiuns com aptidões ainda muito acanhadas que estão em fase de aprendizado e domínio de suas potencialidades. Trata-se de uma tenra semente que precisa ser cultivada para se desabrochar. 

Doenças cármicas:

Sempre que pelas nossas intemperanças desconsideramos os cuidados com o nosso corpo e nas vezes que por agressividade gratuita atingimos o equilíbrio físico ou psíquico do nosso próximo, estamos imprimindo estes desajustes nas células do corpo espiritual que nos serve.
É assim que, na patologia humana, ficam registrados os quadros de “lúpus” que nos compromete as artérias, do “pênfigo” que nos queima a pele, das “malformações” que deformam o coração ou o cérebro, da “esclerose múltipla” que nos imobiliza no leito ou da demência que nos compromete a lucidez e nos afasta da sociedade.
Precisamos compreender que estas e todas as outras manifestações de doença não devem ser vistas à conta de castigos ou punições. O Espiritismo ensina que estas e todas outras dificuldades que enfrentamos, são oportunidades de resgate, as quais, com frequência, fomos nós mesmos quem as escolhemos para acelerar nosso progresso e nos alavancar da retaguarda que às vezes nos mantêm distantes daqueles que nos esperam adiante de nós.
Mais do que a cura das doenças, a medicina tibetana, há milênios atrás, ensinava que, médicos e pacientes, devem buscar a oportunidade da iluminação. Os padecimentos pela dor e as limitações que as doenças trazem, nos possibilitam o esclarecimento, se nos predispormos a buscá-lo. Mais importante do que aceitar o sofrimento numa resignação passiva e pouco produtiva, faz-se necessário, superar qualquer limitação ou revolta, para promovermos o crescimento espiritual, através desta descoberta interior e individual.

Tratamento da doenças espirituais:

Corrigir os problemas espirituais implica em reeducar o espírito. Os tratamentos sintomáticos podem trazer um socorro imediato ou um alívio importante, mas, transitório. Percorrer as casas espíritas em busca de alívio pelo passe magnético, pela água fluída magnetizada com os fluidos revitalizadores ou para desfrutar de alguns momentos de saudável harmonia com a espiritualidade, apenas repetem as buscas superficiais que a maioria das pessoas fazem em qualquer consultório médico ou recinto de cura de outras instituições religiosas que prometem curas rápidas.
Trabalhar para conhecer e tratar a doença espiritual exige uma reforma interior que demanda esforço, disciplina e dedicação.
Neste sentido o médico não está ali para controlar a doença de quem o procura, mas, deve se comprometer em desempenhar o papel de orientador seguro, com atitudes condizentes com as que propõe ao paciente. O postulado número um neste tratamento deve ser, portanto, um código de conduta moral, que deve partir do compromisso que o médico e qualquer outro terapeuta deva assumir.
São de grande sensibilidade os conselhos de Allan Kardec:
“...Dome suas paixões animais; não alimente ódio, nem inveja, nem ciúme, nem orgulho; não se deixe dominar pelo egoísmo; purifique-se, nutrindo bons sentimentos; pratique o bem; não ligue às coisas deste mundo importância que não merecem”.
***       ***       ***
Espírita desde criança, o Dr. Nubor Orlando Facure é médico, especialista em neurologia, diretor do Instituto do Cérebro de Campinas, e ex-professor titular de neurocirurgia da UNICAMP, pesquisador, escritor e expositor espírita. O Dr. Nubor desenvolve estudos pioneiros aliando a medicina aos conhecimentos espíritas e tem colhido resultados maravilhosos com este trabalho. [http://www.terraespiritual.org/espiritismo/entrevista42.html]

Comentários

neyra disse…
PRIMO ARQUIMEDES, MUITO OBRIGADA!

Adorei o texto! Traz muito ensinamento, mais nas entrelinhas até, do que no próprio texto.

Todos temos alguma doênça espiritual, mas é difícil reconhecê-la, já que se manifesta como doênça física ou como alterações comportamentais.
É preciso ser um espírito evoluído para ter o entetendimento necessário para agir conforme os ensinamentos do Espiritismo. E mesmo assim não é fácil, pois é preciso "orar e vigiar" sempre.
Nem imagino quantas vidas terei que viver para chegar a esta evolução, mas com certeza serão muitas e muitas e muitas....
É com uma escada imensa. subimos degrau a degrau, por vezes tropeçamos, caímos, sentamos cansados e pensamos em desistir, mas olhando para o alto percebemos que não nos leva a um lugar que desejamos ou imaginamos no nosso limitado conhecimento e sim a uma luz divina, linda... À Paz.
Então... Voltamos a subir...

Primo querido, que Deus te abençoe e a todos a quem amas!

Com carinho,
Neyra.

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