quarta-feira, 30 de setembro de 2009

EXTREMOS


Extremos
 
Arquimedes Estrázulas Pires

Estamos vendo aí uma foto do nascimento do Rio Amazonas, o maior rio do mundo, em volume de água.
Uma foto do exato momento quando as águas negras do Rio que tem o nome inspirado nessa cor e o Solimões, o Rio das águas barrentas, se encontram e se abraçam; a partir daí viajarão juntos.
Um deles, o Negro, tem origem nas bacias hidrográficas fronteiriças à Colômbia e Venezuela e após viagem de cerca de 700 quilômetros colhendo material orgânico carreado pelas chuvas e tornado ácido por força da decomposição, assume a cor do azeviche para fazer-se parceiro do outro, o rio das águas branco-amareladas, o rio do seu oposto; é a Natureza nos ensinando a importância do equilíbrio dos extremos.
O Solimões nasce nas encostas geladas da majestosa Cordilheira dos Andes peruanos e vai rolando pelas arestas e espigões, em busca dos fiordes e dos baixios argilosos que atravessa enquanto viaja arrancando árvores e porções terrosas que lhe dão a cor do barro branco-amarelado e garantem o respeito que deve ter um rio capaz de meter medo.
Cada um à sua maneira, Negro e Solimões deixam seu nascedouro e seu passado para - unidos um ao outro - formar um curso novo e grandioso.
Começa aí uma viagem de emoções novas; juntando bagagem, aprendizado, força e vida, fazem uma história nova através das soluções de improviso que terão de oferecer a cada problema que surgirá pelo caminho; e não serão poucos!
Da união de dois corpos hídricos absolutamente diferentes, nasce o Rio Amazonas imponente, majestoso, mágico, de personalidade forte e respeito merecido.
É a Mãe Natureza que nos dá mais um exemplo da Sabedoria de Deus. Do equilíbrio das notáveis diferenças entre Negro e Solimões surge o maior curso d’água do Planeta em que vivemos; maior em volume d’água e maior em admiração e respeito.
Na alegoria Adâmica, do Jardim do Éden, Deus colocou lá, no centro das atenções, a chamada “Árvore da Ciência do Bem e do Mal”; para nós o “livre-arbítrio”. É o primeiro registro da necessidade dos extremos para avaliar a evolução do espírito humano e sua capacidade de resistir, pelo conhecimento do bem e do mal, às tentações de todas as horas.
Não podemos prescindir da consciência de que ao mesmo tempo somos animais e espírito; o equilíbrio vem desse conhecimento e de como o compreendemos.
Ninguém é totalmente bom ou totalmente mau; somos um misto das experiências que se sucedem existência afora, o que nos permite reconhecer - ao mais sutil indício percebido - o certo e o errado; e fazer a escolha, se for o caso.
Podemos chamar de sabedoria, à soma de tantas experiências. Nós a ganhamos enquanto caminhamos pelas sucessivas reencarnações nessa eterna e magnífica viagem evolutiva que nos renova, nos acrescenta e nos ilumina a cada novo estágio.
O negro e o branco - se nos for permitido adotá-los como ponto de partida desta despretensiosa análise - têm aqui o papel símbolo desses extremos tão necessários ao equilíbrio de nós mesmos; não nos tornaríamos perfeitos, jamais, sem a total capacidade de discernir entre eles. O que só é possível através do experimento, da vivência e do conhecimento adquirido.
É da experiência obtida a cada ação ou reação, a cada sentir ou ressentir, a cada pensar e a cada fazer, que saímos da ignorância dos primeiros passos e nos dirigimos à condição de espíritos puros.
No estágio evolutivo em que nos encontramos não há ninguém em total estado de pureza e ninguém em estado de completa escuridão; é indispensável, portanto, que sejamos capazes de compreender isso e de assimilar os matizes possíveis entre o tudo e o nada, pra que o equilíbrio se estabeleça e a Luz tenha a oportunidade de desempenhar seu mais importante papel; a Luz precisa iluminar caminhos, consciências e conhecimentos.
Dos caminhos de Luz, das consciências claras e dos conhecimentos possíveis é que vamos tecendo, pouco a pouco, a grande teia da sabedoria humana, que se completa quando a compartilhamos.
Trancado – onde quer que seja – ao acesso de outrem, nada cumprirá seu papel na grande escola da vida; nem os bens materiais e nem o conhecimento adquirido.
O bem material é confiado a alguns poucos para que através dele possam promover o bem-estar de terceiros; e os bens que o conhecimento nos dá, esse patrimônio adquirido pelo esforço de cada um e o único que cabe na bagagem para a viagem de volta à Grande Pátria, de nada serve ou servirá se for mantido inacessível.
Seria como imaginar o sol guardado nos bolsos de Deus para uso e fruto apenas D’Ele.
São os extremos traçados pelo negro e o branco, o esquerdo e o direito, o alto e o baixo, o certo e o errado, a luz e as trevas, o amor e o ódio, a saúde e a doença, a exuberância das matas e o cinzento quase vazio da caatinga, o frescor azul dos oceanos e o amarelo causticante dos desertos, as ferramentas que nos ensinam o equilíbrio e o melhor uso que podemos fazer do livre-arbítrio; só nós mesmos podemos optar por ser melhores ou estacionar no estado crítico da evolução, onde se encontram os que não têm pressa de ver a Luz e que em razão dessa indolência milenar que os têm marcado, talvez nem tenham tempo de ver o sol e nem o prazer de assistir à abertura do portal da Nova Era, onde os escolhidos serão chamados a conhecer o novo Paraíso Terra e os retardatários já terão ido embora.
Qualquer ser minimamente evoluído e, portanto, humilde, sincero e justo, vê Deus como Indispensável em sua existência e se esforça, permanentemente, para justificar o fato de haver sido “criado à Sua imagem e semelhança”. Quem ainda está em vias de compreender a própria razão de ser, acha que basta-se a si mesmo e em lugar de monitorar sentimentos, vive submisso ao próprio ego. No seu pouco entender, pra chegar onde quer independe dos caminhos por onde passe.
De novo são os extremos mostrando o rumo e equilibrando as relações entre o Criador e a Criatura.
Só a aceitação pacífica e harmoniosa de todas as coisas que a busca permanente do conhecimento nos dá é que seremos capazes de compreender o equilíbrio que precisamos ter para seguir adiante; de que serviria o livre-arbítrio, se o próprio Deus, desfazendo as diferenças, Resolvesse os problemas que criamos e nos Permitisse soluções mágicas para as grandes questões da existência?
Se a cada um fosse permitido fazer o mundo como bem entendesse, sem diferenças e sem extremos, não é difícil imaginar o caos em que estaríamos vivendo; e tampouco seria possível conceber o estado primitivo em que nos encontraríamos!
Porque, é a partir das diferenças que conseguimos assimilar em cada tempo, que nasce a capacidade de compreendermos o mundo e de evoluir.
Está no Evangelho Segundo o Espiritismo, que “por mais longa que nos pareça a viagem, encurtar ou aumentar o tempo de jornada é coisa que só nós – cada um de nós, individualmente! – pode decidir!”
Que valor teria a vida se, num estalar de dedos, nos fosse dado passar do estágio em que nos encontramos, à angelitude? Sem fazer a viagem entre os extremos, como saber o que há entre eles? É por isso que o pensador nos garante que “é mais importante o ir do que o chegar.” São sempre os nossos feitos – bons ou não – que determinam o itinerário da viagem e não há sábio que o tenha sido sem esforço próprio.
Nada do que é conquistado por privilégio e não por merecimento, nos acrescenta muita coisa.
Estamos em ascensão e em transição; ascendendo para a Luz do conhecimento e da razão e em trânsito para a Nova Era, o tempo de separação do joio e do trigo.
Aos que já compreendem o sentido da existência, não há mais tempo a perder; o lugar é aqui e o tempo é... agora!

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