sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Virtudes e equívocos

                                           A prédica torta
11.01.11
Arquimedes Estrázulas Pires
O Cristianismo tem sido praticado de mil maneiras, por inúmeras correntes filosófico-religiosas, e nem todas estão sintonizadas com a mensagem trazida pelo Homem de Nazaré. Muitas, viram crescer de tal maneira a quantidade de pessoas que buscam solução para os seus problemas imediatos, que passaram a usar essa demanda como medidor de “até onde” podem avançar para satisfazer, não à mensagem de Amor e Caridade que os Evangelhos ensejam, mas aos imediatismos materialistas estreitamente ligados ao lado econômico e financeiro da atividade. O que – cá entre nós – não tem absolutamente nada a ver com o que Jesus veio fazer neste belo planeta azul!
O Jesus que conhecemos e a quem chamamos de Mestre, é O Portador do Evangelho do Cristo; o Portador da Boa Notícia: a de que, pela prática sistemática do Amor e da Caridade, fazendo aos semelhantes apenas e tão somente aquelas coisas que nos deixam felizes quando eles as fazem a nós, teríamos vida em abundância e seríamos felizes viajores rumo à perfeição. Mas não é isso o que muitas igrejas insuflam na cabeça dos seus nem sempre conscientes seguidores.
Há relatos de “pregadores” que incutem na mente de seus desavisados adeptos que, se não “contribuírem com a obra de Deus”, nem terão saúde, nem terão sucesso nos negócios, nem serão felizes e nem serão salvos. O lamentável no fato é que esse “contribuir” não está relacionado à difusão do Evangelho ou às práticas do amor a Deus e ao próximo, mas ao “engordar” dos cofres pessoais de líderes e arautos que à moda dos profetas de Baal e de Asera [I Rs 18:19], dependentes do poder material a que servem, disseminam ilusões como se fossem verdades e, por sua ânsia de poder e domínio, blasfemam em tom de oração.
Francamente! Jesus, O Redentor, não tem nada a ver com esse “cristianismo espetaculoso” que modernamente tem sido ofertado ao mundo, especialmente entre os simples, onde os sentimentos são mais sensíveis aos apelos da fé e onde falsos profetas encontram solo apropriado às sementes estéreis que plantam nos corações sem maldade.
Na suntuosidade dos templos – e a peso de ouro - Jesus tem sido transformado em mágico e milagreiro. Até desafios há, entre os pregoeiros, sobre “onde” os milagres acontecerão em maior abundância. O Evangelho tem sido usado muito mais como ferramenta de leiloeiro do que como ensinamento e guia doutrinário. Confirmação definitiva do alerta de Jesus Cristo, de que ao final dos tempos haverá enganadores por toda parte: “E se alguém vos disser: Eis que o Cristo está aqui, ou ali, não lhe deis crédito; porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão tão grandes sinais e prodígios que, se possível fora, enganariam até os escolhidos ." [Mt. 24: 23 e 24]
Pedro Galli, um velho amigo, diz que “a dor de uma distensão muscular não pode ser eliminada em nome de Jesus, porque Jesus não teve nenhuma participação na nossa decisão de subir na árvore, de jogar futebol ou de - quem sabe - participar da corrida de São Silvestre”! E ele tem razão; ninguém pode imaginar que seja possível mandar que o dentista lhe abra um dente, lhe implante um pedaço de goiabada, lá dentro, feche o buraco e que isso não lhe cause dor. Por maiores que sejam a coragem e a fé, e independentemente da vontade do indivíduo, o dente vai doer; e vai doer muito! E Jesus não fará absolutamente nada pra evitar que doa, porque muito antes de decisões inúteis, como essa, fomos avisados por Ele, através do Evangelho, que “ninguém colherá frutos que produzam sementes diferentes daquelas que decidir plantar”! [Mt. 16: 27]
Mas, Jesus atuará – e atuará prontamente – em nossas vidas se, em benefício de nós mesmos ou de nossos semelhantes, agirmos movidos pelo amor, pelo arrependimento e pelo perdão; se praticarmos a caridade e se nos empenharmos na prática do bem.
Ninguém pode oferecer a quem quer que seja e a que pretexto for, qualquer coisa que não esteja em si mesmo ou qualquer coisa que não tenha. Portanto, pra que possa compartilhar amor, caridade, justiça, honra e santidade, é fundamental e indispensável que tenha um pouco de cada uma dessas qualidades e virtudes, dentro de si mesmo.
Desde há muito o homem deixou de ser movido pelos instintos; são os sentimentos os propulsores do espírito humano em direção ao conhecimento, à sabedoria e à perfeição. E, dentre todos esses sentimentos, o principal é o Amor. Foi por Amor que Deus criou o mundo e é por Amor que somos impulsionados, tempo afora, na busca de experiências que nos engrandeçam, de situações que nos ensinem, de lições que nos tornem melhores, de aprendizado e de compreensão da Obra da Criação de Deus. Ninguém será perfeito – e aí não importa o tempo que demore pra que atinja tal condição – se não houver passado por todas as experiências e vivenciado todas as situações de existir.
Jesus Cristo não é, definitivamente, um plantonista a serviço dos caprichos humanos. Logo, não é da alçada d'Ele nos fazer passar nos exames da faculdade, nos garantir o emprego, impedir que sejamos abandonados pela namorada ou pelo marido, nos fazer simpáticos, etc. Conseguir tudo isso é tarefa única e exclusiva de cada um, na medida dos esforços que despender em estudar, na dedicação que tiver no trabalho, no trato respeitoso à namorada ou ao marido, na afabilidade que demonstrar no trato com os semelhantes e nos critérios de justiça e esmero com que desempenhar as atividades que lhe caibam desempenhar.
É preciso esclarecer, entretanto, que há uma condição em que Jesus pode nos ajudar a melhorar a performance nas atividades que desenvolvemos, inclusive nessas que acabamos de citar: É quando nos colocamos receptivos às Suas bênçãos e em condição de prece, antes de cada dia, antes de cada atividade, antes de cada decisão, agradecemos pela sabedoria na solução de cada problema vencido, pela inspiração, pela intuição e pela aceitação de cada fato, insistindo que deve prevalecer, sempre, “a vontade d'Ele e não a nossa”. Mas esse agradecer deve ser legítimo e nascido do coração; deve brotar da alma, como um grito de louvor e glória. Qualquer coisa diferente disso deve ser colocada na lista das inutilidades. A Alta Hierarquia Espiritual não aceita tentativas de negociação ou atitudes de faz de conta!
Essa é a grande razão da necessidade imperiosa que há, de compreendermos como Deus atua em nossa existência. Precisamos compreender que não é o dízimo ou a oferta de domingo, à igreja ou organização religiosa onde congregamos, que vai fazer a diferença nas nossas relações com a Espiritualidade Maior; mas o sentimento que nos move a tal gesto, e a capacidade de orar. A oração é o grande mecanismo de sintonia com o Deus que tudo Pode, é o grande canal de ascensão do espírito humano, o melhor instrumento de harmonização orgânica do corpo físico e o melhor caminho para a alegria, a saúde e a felicidade.
É evidente que a manutenção e o crescimento de uma instituição religiosa com registro e endereço certo, demandam recursos financeiros. Se a existência de tal instituição é importante para os membros que a compõem ou àqueles que seguem a doutrina ali professada, então estes devem colaborar financeiramente - mas nunca além das suas posses [I Co 16:2] - para a manutenção da estrutura que já existir ou for projetada. Há luz elétrica, água, material de limpeza, serviço de som, pagamento de funcionários, encargos trabalhistas, deslocamento de sacerdotes, etc., que precisam ser saldados nos devidos prazos e isso exige... dinheiro. Mas nenhuma instituição religiosa precisa acumular fortunas materiais e excedentes financeiros; a Obra de Deus tem reflexos no espírito de todos os que dela se beneficiam e não apenas na vida dos líderes que a apregoam.
O Apóstolo Paulo, em sua Segunda Carta aos Coríntios [9:6], diz: “quem planta pouco, colhe pouco; quem planta muito, colhe muito”.
Isso, no entanto, não significa que o Evangelho do Cristo, a Boa Nova que Ilumina o mundo, encontre justificativas, nesse versículo, para ser substituído pelo que poderia ser chamado de evangelho da ambição e do enriquecimento pessoal, aviltante e desrespeitoso. Até porque, Paulo fez tal afirmativa, em agradecimento ao povo de Corinto que se preparava para um necessário auxílio aos “cristãos da Judeia”; não em referência a dízimos ou a quaisquer outras contribuições – voluntárias ou não - à igreja ou a ele próprio.
O Evangelho que Jesus Coloca à disposição da humanidade não pode ser utilizado como pretexto para nenhum tipo de extorsão. Pessoas que vão à igreja, por mais simplórias que sejam, ou estão sintonizadas com Deus e vão até lá para, em conjunto com outras tantas, glorificá-Lo, ou estão vazias, quem sabe desesperadas, carentes, necessitadas ou até mesmo em estado de graça; que importa? O importante é que, se vão à igreja, o fazem em agradecimento, busca, consolo, socorro, ajuda ou amparo.
É compreensível – embora inaceitável - que haja também os vivaldinos que imaginam-se mais inteligentes do que a média e, num descabido e equivocado gesto, vão à igreja na intenção de barganhar com Deus; dão gordas contribuições financeiras na esperança de reaver tais quantias multiplicadas. Deus não negocia com ninguém. Não tem cabimento esse tipo de postura e comportamento.
Quando os sacerdotes, pastores e líderes ensinarem objetivamente as coisas que Jesus desejou legar à humanidade através do Evangelho, as pessoas serão mais sábias, haverá mais amor e mais caridade nas relações humanas e o mundo será mais pacífico, mais ordeiro e mais justo. As pessoas que vão à igreja precisam saber que são elas – por seu livre-arbítrio - e não Jesus, as responsáveis pelo sucesso ou fracasso do que intentarem na vida.
A diferença é que, como filhos de Deus e agindo coerentemente com essa condição, inspirados nos exemplos de Jesus podemos acertar mais do que temos acertado e errar muito menos do que temos errado. Mas, seja como for, a participação de Jesus em nossas vidas é e será, sempre, na condição de Mestre e Orientador; jamais de serviçal! Oremos, portanto, pedindo inspiração e agradecendo as bênçãos que diariamente recebemos; em nenhum momento, no entanto, nos coloquemos na posição de mendicantes, diante de Deus. Nenhum pai quer seus filhos rastejando; Deus... menos ainda!
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2 comentários:

Silvio Matos disse...

Brilhante este seu escrito Arquimedes, verdadeiro, coerente, objetivo e elucidativo, PARABENS!

Joferraz. disse...

Você é um mestre nas palavras e brilhante quando defende aquilo que crê.
Que esta luz que ilumina sua mente possa iluminar ainda mais todo o seu ser pelo Tempo a fora, pelos cantos do Universo.
um beijo pra vc, no coração.